Era um domingo de manhã, cinco de novembro de mil novecentos e noventa e oito, por volta das nove horas. O sol entrou pela fresta da cortina marfim rendada e atingiu seu rosto pálido, talvez um pouco frígido e cansado. Catherine abriu um olho de cada vez, com dificuldade. Levou uma de suas mãos ossudas ao rosto e tirou a mecha de cabelo loiro-claro dos olhos e tentou sorrir, falhando.
Enquanto isso, um gato vira-lata manchado de preto e branco miava e roçava-se contra o corpo de Etiénne, que dormia pesadamente. O gato caminhou sorrateiramente, sorrindo, como se pudesse, feito uma velhinha doce, daquelas que balançam em cadeiras e tricotam meias para os netos o dia todo. Etiénne virou-se na cama e abriu os olhos subitamente, se deparando com Jeanlin, o gatinho preguiçoso. Afagou a sua cabeça e bocejou, sem colocar as mãos na boca. Afinal, a quem devia respeito? Estava em sua residência.
Foi se levantando devagar, esticando os braços e arqueando as costas, ouvindo cada osso estalar. Catherine abriu as cortinas e contemplou o céu azul-nublado, ouviu os passarinhos cantarem e tocou o vidro sujo da janela. "Está na hora!" pensou ela. E então, levantou-se da cama com lençóis marfim rendados, combinando com a cortina, e foi até o móvel antigo de madeira, puxou uma gaveta e tirou um vestido marfim rendado, enfiando as pernas e vestindo-o por cima de sua lingerie marfim rendada. Pegou seus arranjos de flores brancas e pequeninas e prendeu seu cabelo em um coque mal-feito, enfeitando-o com as flores.
Na cidade, Etiénne já havia se levantado, vestido uma calça de veludo marrom, uma camisa xadrez bege e verde-musgo e um blazer preto. Estava, agora, concentrado no seu croissant mofado e em seu café requentado. Pela sua cabeça, passava-se: "Comer ou não comer esse croissant estragado de merda? Uhm, vou tirar a parte mofada e comer o resto!". Então ele fez isso. E comeu com a mesma rapidez que se pisca os olhos. Levantou-se da mesa, pegou sua bolsa-carteiro, afagou a cabeça de Jeanlin e saiu apressado pela porta. "Ei, Mouquete, deixei a porta aberta!" gritou ele, ao sair pela porta da pensão.
Catherine, agora, passava geleia de framboesa caseira em sua torrada, enquanto solfejava uma música dos Beatles da qual não se lembrava o nome. Repousou a torrada sobre o prato de porcelana e mexeu seu chá, levando-o à boca e bebericando-o. Fez isso por vinte minutos, alternando duas pequenas mordidas na torrada e um gole de chá. Ao terminar, levantou-se e ajeitou sua franja loira desgrenhada. Suspirou e voltou ao quarto, pegando um lenço marfim rendado e um óculos-de-sol branco modelo wayfarer clássico. Saiu pela porta e andou em direção ao quintal, de onde já se era possível ver um campo de girassóis, lírios e margaridas. Inspirou aquele ar puro, uma mistura de flor, terra e grama.
A vida na cidade era muito corrida. Etiénne já havia ido à estação, voltado à pensão para pegar sua polaroid, e voltado à estação, pegando o metrô das dez horas. Estava vazio. Ele sentou-se ao lado de um senhor calvo com óculos quebrados e reparados com fio-dental. Deu-lhe bom dia e passou a cantarolar alguma música dos Beatles, buscando em sua memória pelo nome dela. "Blue Jay Way" pensou ele. E seguiu assim. "Estação Montsou - o campo" ouviu-se ecoar no metrô. Etiénne sorriu para o senhor, que respondeu com uma confirmação da cabeça. Saiu apressado pelas portas elétricas, optando pelas escadas normais, para ir mais rápido. Deparou-se com um belo campo de margaridas, lírios e girassóis. Um aroma doce invadiu suas narinas. Ele procurou pelo seu maço de cigarros e enfim encontrou-o no bolso de dentro do blazer. Pegou um Camel meio amassado e acendeu com seu isqueiro amarelo-bandeira. Tragou-o duas vezes seguidas e passou a caminhar em direção às flores.
Em meio a girassóis, Catherine girava, de olhos fechados, e cantava alto "Please don't belong, please don't you be very long, please don't belong... or I may be asleep...". Parou e olhou ao seu redor. Cheirou um girassol e acariciou suas pétalas, cantando "... Sitting here in blue jay way...". Então ela sentiu um cheiro estranho, não tão doce quanto o aroma floral, mas um pouco amargo, parecia com o cheiro do café que seu avô tomava. Então ela viu uma cabeça ruiva rodeada por uma fumaça branca e ficou espantada... "Oh! O que fazes aqui?".
Etiénne, já cansado de andar, deu um último trago em seu cigarro e jogou-o no chão, pisoteando-o com seu sapato clássico marrom. Tirou de dentro de sua bolsa-carteiro a Polaroid, bateu uma foto dos girassóis e do céu. Deu uma olhada rápida e disse para si mesmo "É, esse lugar é mesmo bonito...". Então ele deu mais alguns passos e deparou-se com uma menina loira, magra, talvez um pouco sofrida, sentada sobre um lenço marfim rendado, vestida num vestido, segundo dele, adorável, marfim rendado também. Ele, quase que inconscientemente, sorriu e disse-lhe "Olá".
Catherine tirou os óculos-de-sol e lançou-lhe um olhar penetrante, de olhos mel-esverdiados, e sorriu docemente. Seus dentes levemente tortos sobressaíram-se e ela logo tratou de escondê-los novamente. Levantou-se e apertou a mão de Etiénne, que sorriu-lhe de volta e retribuiu ao aperto de mão. Ele largou sua mão de súbito e pegou a Polaroid, apontando a lente para Catherine, que ficou corada e deu um sorriso meigo, sem mostrar os dentes. Etiénne pegou a foto, balançou um pouco e deu uma olhada. Não pôde conter um sorriso e beijou a foto, dizendo "Uma obra-prima!". Catherine riu e disse "A foto, suponho". Ele olhou de novo para a foto e respondeu: "Não. A foto é uma foto como todas as outras, sobre o mesmo papel, sob a inscidência da mesma luz solar... O que a diferencia das outras é o seu conteúdo. Preciso colar isso na minha parede". Ela riu, meio sem entender, e tomou-lhe a foto. Observou, aproximou-a dos olhos e, apertando-os como para enxergar melhor, concluiu: "Estou feliz na foto, não acha?". Etiénne, pasmo com o vento que batia nos cabelos já soltos de Catherine, respondeu "Acho. Feliz, radiante, bela, doce, meiga, querida, rosada e incrivelmente adorável". Ela não sabia o que dizer, afinal, nunca havia sido cortejada de tal maneira. Ela observou-o e pensou: "Please don't belong, please don't you be very long...". Então Etiénne deu um passo à frente, tomando a cintura de Catherine em suas mãos. A menina, agora em voz alta, cantou "Please don't belong, or I may be asleep". Ele apertou a cintura dela e puxou-a contra si, roçando o seu nariz no nariz perfeitamente arrebitado dela. Catherine corou e passou seus lábios sobre os de Etiénne, que logo lambeu os lábios dela. Ela levou as mãos aos cabelos ruivos dele e puxou a cabeça dele para si, que, por sua vez, pressionou o seu corpo contra o dela. Os dois movimentavam suas línguas em perfeita sintonia. Os pássaros cantaram, o vento soprou e o brilho do sol tornou-se mais intenso. Os dois só conseguiam pensar em uma coisa: "Por que você demorou tanto? Por favor, não demore mais, ou eu posso adormecer".
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
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Catherine e Etiénne, haha. Clássico!
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